Eli Goldratt: uma breve homenagem

Por: Celso Calia*

O aniversário de nascimento de Eliyahu M. Goldratt (31/03/1947) tem elevado valor simbólico para a Goldratt Associados Brasil.

Professor, físico e filósofo, sua obra é uma das fontes mais profícuas para repensarmos diariamente a gestão empresarial, sem medo de derrubar barreiras. Sua morte prematura (11/06/2011) nos ceifou a oportunidade de continuarmos acompanhando sua capacidade criativa. Mas seu legado é suficiente para devotarmos a ele nossa gratidão.

Antes de tratar da importância de sua obra e da profundidade de seu pensamento, parto, neste artigo, em busca de registros esparsos na memória para tentar recompor um pouco da minha história profissional e da Goldratt Associados Brasil, do caminho perseguido depois de descobri-lo com a leitura premonitória do best-seller A Meta, no início dos anos 80. Uma aproximação que justifica esta reflexão e o sentimento de perda.

Em meados dos anos 60, estudei na Escola de Engenharia Mauá, São Paulo, e estagiei na Garrett, uma empresa de autopeças. Assim que me formei, preocupado com o futuro, soube de um curso concorridíssimo de pós-graduação em Engenharia de Petróleo – Perfuração e Produção, oferecido pela Petrobrás de Salvador. Trabalhar na estatal era o sonho de toda a minha geração e aquela poderia ser a porta de entrada. Só que vivíamos um período triste para o setor. A Opep dos sheiks estava determinada a controlar o mercado internacional e a política que seguia inviabilizava a expansão da produção brasileira. Idealista, mesmo diante do cenário desolador, estudei muito, conquistei uma vaga e completei o curso em 69, na Bahia. A continuação do quadro de queda de produção da Petrobrás me levou a aceitar o convite para voltar à Garrett e ascender aos níveis de gerência industrial.

O diretor da empresa estava sempre atento à dinâmica do mercado e aprovava meu empenho para tentar superar problemas internos a fim de ganhar competitividade. Passamos pouco mais de uma década nesse ritmo, até que, num belo dia, ele me deu de presente o livro A Meta, obra recém-lançada no Brasil, da qual eu nunca havia ouvido falar. – Isso talvez possa lhe ser útil, disse. Agradeci lisonjeado. Ao começar a leitura, percebi que estava diante de algo inusitado e que aquela história maravilhosa seria para mim o estopim de uma revolução em meu entendimento sobre processo de gestão.

A Meta foi o mesmo que olhar por uma janela e ver o mundo. Entusiasmado com a descoberta, em 1984 criei um grupo de estudos na própria Garrett. Cada integrante lia um capítulo da obra, resumia e passava a síntese aos demais. Quando todos assimilaram a metodologia proposta pelo pensador israelense, decidimos aplicá-la. O sucesso surpreendeu tanto que ganhou praça e começou a despertar interesse das subsidiárias internacionais da Garrett, ao ponto de me convidarem para coordenar a replicação da técnica em suas fábricas, visando o elevado grau de eficiência que havíamos alcançado.

Tudo me levava a crer que eu deveria investir na carreira de consultor. Apostei então em uma atitude arriscada para um jovem gestor: entrei em contato direto com o próprio Eli Goldratt. Tive sorte imensa. Ele me atendeu ao telefone como se já me conhecesse. – Gostei da sua atitude, disse-me ao saber do meu propósito. Mais. – Acompanharei atentamente o trabalho de vocês, completou. Um holofote se acendeu e clareou o nosso caminho. Esperto e com faro invejável para fazer dinheiro, quando percebeu que havia no Brasil espaço ao desenvolvimento da sua filosofia, em 1987 tomou a iniciativa de me ligar. – Pretendo visitá-los e ficarei três dias no país para conhecer o trabalho que está sendo feito pela sua equipe e conduzir conferências. – Fantástico, respondi exultante. Evidentemente, todo mundo entrou em êxtase. Foi pura realização ter contato direto com aquele que havia se tornado o nosso guru.

Tornamo-nos amigos e no ano seguinte participei do primeiro grupo de treinamento no recém-criado Instituto Goldratt, na Costa Leste dos EUA, em cursos de duas semanas de duração, tempo integral, comandados pelo próprio pai da Teoria das Restrições. Em 1990 participei também do Jonah’s Jonah Program, para formar instrutores – sendo Jonah o nome do consultor de A Meta, que ajudou Alex Rogo a superar a crise da empresa UniCo. Os encontros visavam habilitar profissionais de alto padrão para consultorias e treinamentos em todo o mundo. Ao retornar ao Brasil, além de dar continuidade às atividades na Garrett, decidi preparar material para desenvolver equipes de outras empresas.

Com mil ideias na cabeça, não tardou para eu concluir que não tinha mais tempo a perder e devia montar a minha própria empresa. Era o início da Enfoque Consultoria, que deu origem à Goldratt Associados Brasil. A demanda por treinamentos estava em alta e a ocasião era oportuna para novos projetos. A empresa embrionária rapidamente ganhou musculatura, mas em nenhum momento perdi contato com o meu mestre. Tanto é que em 1994, a convite dele, tornei-me um dos seus sócios no desenvolvimento de novas metodologias Goldratt. Eu viajava aos EUA de 4 a 5 vezes por ano para participar das reuniões da sociedade e dos estudos avançados da metodologia. Devido a essa jornada intensa, movida a aprendizado contínuo e aplicações técnicas, estamos aqui hoje, trabalhando com grandes empresas brasileiras e multinacionais, uma trajetória de muitos casos de sucesso.

De forma sintética, a Teoria das Restrições (TOC), pano de fundo de A Meta e de todas as suas demais obras, é um arcabouço teórico fundamentado em conceitos que precisam ser assimilados para se perceber a amplitude das ações cabíveis em uma estrutura produtiva, visando atingir a meta, que é ganhar dinheiro. Como um médico que faz o diagnóstico a partir de sintomas, sem cair na armadilha de ficar receitando remédios para questões tópicas, o consultor inicia uma varredura na empresa em busca da causa primeira. Toda organização é uma somatória de elos. Há sempre um elo mais fraco (gargalo) que precisa ser reforçado. O objetivo é identificá-lo com precisão e reforçá-lo, para que toda a corrente seja reforçada sem ter que reforçar todos os demais, despendendo esforço e dinheiro desnecessários. O caminho para otimizar o todo não deve passar pela otimização das partes, mas sim, das suas poucas restrições.

Voltando ao ponto de partida deste artigo, fui compreendendo gradativamente e a fundo como se deu a formação de Eli Goldratt e de onde ele extraía tanta inspiração para o trabalho. Ele era um homem minucioso e obstinado. Como judeu, natural de Jerusalém, sua preparação religiosa foi intensa. A assimilação do Torá, via Talmude, deu-lhe uma rica percepção literária e lógica da realidade. A investigação era o fundamento do Bar Mitzvah, sendo os alunos induzidos a buscar respostas das perguntas lançadas pelos preceptores e se apropriar do conhecimento alcançado. Técnica de aprendizado que se fortaleceu ao estudar Sócrates durante a faculdade. Como físico, seu objetivo eram os conceitos universais, que pudessem nortear todo tipo de pesquisa. Essa somatória de fatores fez nascer um grande talento, com estilo, olhar científico e percepção questionadora.

Homenagear Eli Goldratt neste momento é recordar uma bela história de vida e de amizade. É relevar nossa escolha pela sua engenharia intelectual para a gestão de empresas. É nos posicionarmos com grandeza diante do cenário econômico sem nos perdermos em particularidades e sem nos atemorizarmos em fazer diferente. E, assim, continuarmos nos dedicando à solução dos problemas centrais das empresas que acreditam na superação de barreiras para seguirem adiante.

* Celso Calia

  • Sócio-fundador da Goldratt Associados Brasil (1990)
  • Sócio e colaborador do Dr. Eliyahu M. Goldratt no Avraham Goldratt Institute – USA (1990 a 2007)
  • Membro-fundador da TOC-ICO – USA (2003), com certificação em todas as metodologias da Teoria das Restrições